Hugo Lopes já cruzou a meta de maratonas em Portugal e em Itália, com o cronómetro a correr, o Strava a confirmar e o corpo treinado para aguentar. Mesmo assim, garante que uma das provas mais exigentes que enfrentou não teve dorsal nem tempo final: foi o Caminho de Santiago. Fez o Caminho porque «precisava». Nesta conversa sobre o Caminho de Santiago para atletas, explica-nos porquê e o que descobriu quando deixou de correr contra o relógio e passou a caminhar ao lado dele.
Índice
Comecemos pelo essencial: porque é que precisava de fazer o Caminho?
Para me desafiar, principalmente para sair da minha zona de conforto, superar os meus próprios limites e provar a mim mesmo que sou capaz de fazer algo que exige esforço e determinação.
Diz que foi uma das maiores provas que enfrentou. Em que sentido foi mais difícil do que uma maratona?
Não diria que foi mais difícil do que uma maratona, mas sim mais desafiante, principalmente a nível emocional. Uma maratona é um desafio intenso, mas que se vive num único dia. O Caminho é diferente: são vários dias consecutivos de esforço físico e mental, em que tens de encontrar forças para continuar, mesmo quando o cansaço se acumula. É um desafio que te põe à prova não só fisicamente, mas também emocionalmente, dia após dia.
Uma maratona dura poucas horas, o Caminho dura dias. Como é que o corpo reage a esse tipo de esforço prolongado?
O corpo vai acumulando o cansaço ao longo dos dias, mas o maior desafio acaba por ser também mental e emocional. Numa maratona, sabes que o esforço termina ao fim de algumas horas; no Caminho, sabes que no dia seguinte tens de voltar a levantar-te e caminhar. É aí que percebes que não se trata apenas de resistência física, mas também de força de vontade e capacidade de superar os teus próprios limites.

E a cabeça? O que muda quando não há cronómetro nem classificação?
A cabeça muda porque deixas de estar focado no tempo ou no resultado e passas a estar focado na experiência. No Caminho, o desafio é contigo próprio, com os teus pensamentos, com o cansaço e com as emoções. Aprendes a respeitar o teu ritmo, a viver um dia de cada vez e a perceber que, muitas vezes, a maior vitória não é chegar primeiro, mas ter a força de continuar, dia após dia.
O treino de corrida ajudou-o no Caminho, ou chegou a atrapalhar?
Acho que acabou por ajudar, na resistência física.
Leia também: 10 dicas para não ganhar bolhas nos pés durante o Caminho de Santiago
Teve dificuldade em abrandar? Deu por si a fazer etapas mais longas do que devia?
Sem dúvida! Por vezes, a cabeça não tem juízo e quem acaba por pagar a fatura é o corpo. A vontade de continuar e de superar os próprios limites fala mais alto, mas o Caminho também nos ensina que é preciso saber abrandar, respeitar os nossos limites e perceber que não temos de provar nada a ninguém.
Qual foi o momento em que esteve mais perto de desistir?
Sem dúvida, no primeiro dia.
O que é que o Caminho lhe deu que as maratonas nunca lhe deram?
Sem dúvida, experiência de vida e uma perspetiva diferente sobre muitas coisas. As maratonas ensinam-me a superar os meus limites físicos, mas o Caminho deu-me tempo para pensar, para me conhecer melhor e para valorizar as pequenas coisas. É uma experiência que vai muito além do esforço físico e que nos deixa aprendizagens que levamos connosco muito depois de chegarmos ao destino.

Voltou a correr de forma diferente depois de Santiago?
Sim, sem dúvida.
Que conselho daria a um atleta que acha que, por correr bem, o Caminho vai ser fácil?
Diria para ir de mente aberta e sem excesso de confiança. Correr bem é uma vantagem, mas o Caminho é muito mais do que resistência física. São vários dias de esforço acumulado, em que a cabeça nem sempre acompanha a vontade e o corpo acaba por cobrar os excessos. É importante respeitar o próprio ritmo, saber abrandar e perceber que o objetivo não é chegar mais rápido, mas viver a experiência. O Caminho não se faz apenas com as pernas, faz-se também com a cabeça e com o coração.
Qual foi a coisa mais inútil (ou mais caricata) que alguma vez levou na mochila?
Sinceramente, foram várias! Desde triplas e consola até ao excesso de roupa, levei um pouco de tudo, como se fosse passar semanas fora. Com o tempo, percebi que, no Caminho, cada grama conta e que aquilo que parece indispensável antes de partir acaba, muitas vezes, por ser peso desnecessário às costas. Aprendi que, quanto menos levarmos, mais leves caminhamos, e isso não se aplica apenas à mochila!
Todas as fotografias deste artigo são do Hugo Lopes.








