Nuno divide os dias entre a sala de aula e a direção de Tecnologias de Informação de vários projetos, dois mundos onde tudo depende de estar ligado. Talvez por isso volte, ano após ano, ao Caminho de Santiago, onde a rede mais importante é a das setas amarelas. Já fez vários percursos e não tenciona parar. Nesta entrevista, falamos sobre tecnologia, desconexão, ensino e sobre o que faz alguém regressar sempre ao mesmo destino por caminhos diferentes.
Como começou a sua história com o Caminho?
O meu primeiro Caminho foi em 2016, quando percorri o Caminho Central Português, desde a Sé do Porto até Santiago de Compostela. Decidi fazê-lo por fé, curiosidade e também pelo gosto que sempre tive por longas caminhadas.

Continua a fazer percursos novos. O que o faz voltar?
Desde 2016, reservo sempre alguns dias por ano para fazer um Caminho de Santiago, ou pelo menos uma parte dele. O que me faz voltar é uma sensação difícil de explicar, uma vontade constante de regressar. Gosto de viver o Caminho e de aproveitar esses dias e quilómetros para refletir sobre a minha vida e fortalecer a minha relação com Deus.
Trabalha em tecnologia. Consegue desligar-se no Caminho? Como gere o telemóvel?
Durante o Caminho, utilizo a tecnologia apenas para o essencial: reservar alojamento, consultar mapas e tirar fotografias. Só no final de cada etapa é que uso o telemóvel para alguns momentos de lazer e para falar com a família.

Que aplicações ou ferramentas acha realmente úteis no Caminho, e quais dispensa?
As aplicações que considero mais úteis são o Booking, para reservar alojamentos, uma vez que costumo fazê-lo etapa a etapa, e ferramentas de planeamento de trajetos como o Buen Camino, o Maps e o Camino Ninja. Também destaco a AlertCops, a aplicação da polícia espanhola, que permite pedir apoio em caso de emergência.
Leia também: É seguro fazer o Caminho de Santiago?
Planeia o Caminho como um projeto de IT ou deixa espaço para o improviso?
Antes de iniciar um Caminho, faço um estudo aprofundado das suas características: alojamentos, tipo de terreno, supermercados, transportes e outros aspetos relevantes. Como gosto de caminhar entre 30 e 40 quilómetros por dia, essa preparação ajuda-me a definir objetivos para cada etapa. No entanto, deixo sempre espaço para adaptações, porque durante o percurso podem surgir imprevistos, como falta de alojamento ou o simples facto de o corpo não responder como previsto.
O que é que o Caminho e a sala de aula têm em comum?
Acredito que ambos exigem a capacidade de superar adversidades, resiliência e improviso. Tanto no Caminho como na sala de aula surgem desafios inesperados que obrigam a encontrar soluções e a continuar em frente.
Já pensou fazer o Caminho com alunos? O que acha que aprenderiam?
Nunca pensei seriamente nessa hipótese, embora já me tenham sugerido que o fizesse. Como faço sempre o Caminho sozinho, por ser um momento muito pessoal de encontro com Deus, nunca considerei organizar um grupo de alunos. Ainda assim, acredito que aprenderiam a estar mais desligados do mundo digital, a ouvir e sentir a natureza, a desenvolver a capacidade de esperar, bem como a ser mais autónomos e resilientes.

Dos percursos que fez, qual recomendaria a quem nunca fez nenhum?
Para quem está a começar, recomendaria o Caminho Português da Costa. Além de ser um percurso muito bonito, é também relativamente tranquilo do ponto de vista físico.
Qual é o próximo na lista?
Neste momento, estou a estudar um novo percurso: o Caminho de León de Rosmithal.
Qual foi a coisa mais inútil (ou mais caricata) que alguma vez levou na mochila?
No primeiro Caminho, levei uma mochila carregada de coisas desnecessárias. Nas oito experiências seguintes, fui aprendendo a viajar cada vez mais leve. Talvez o objeto mais inútil tenha sido um caderno que levei com a intenção de escrever um diário das etapas. Acabou por regressar a casa exatamente como foi: completamente vazio.
Todas as fotografias deste artigo são do Nuno.








