Peregrino de pé num rochedo, a olhar para o mar

Farda no cabide, mochila às costas: um polícia no Caminho de Santiago

por Daniela Silva7 Outubro 20266 min de leitura

João Carlos é agente da Polícia Municipal do Porto e passa os dias a zelar pela segurança dos outros. Fora do serviço, troca a farda pela mochila e já fez vários caminhos até Santiago de Compostela. Guarda recordações de todos, mas há algumas que ficaram especialmente na sua memória!

Nesta entrevista, falamos sobre o que se sente ao partir de longe, sobre as histórias que o Caminho de Santiago lhe deu e sobre o olhar de quem, mesmo de folga, não deixa de reparar em tudo.

Como teve a ideia de fazer o Caminho de Santiago?

Foi por acaso. Nas férias de verão, em 2009 ou 2010, não tinha planos e, um dia, passou no noticiário uma reportagem sobre os Caminhos de Santiago. Fiquei curioso, decidi desafiar-me e ir.

Que caminhos já fez fora de Portugal? Onde começou cada um?

Fiz o Caminho Francês, a partir de Saint-Jean-Pied-de-Port (uma vila francesa no sopé dos Pirenéus), e o Caminho Inglês, a partir de Ferrol, na Galiza. Fiz também o percurso até Finisterra e Muxía, passando por Olveiroa, e muitos outros.

Placa de Saint-Jean-Pied-de-Port e placa de boas-vindas ao Bierzo, no Caminho Francês
Fotos: João Carlos

Mas deixe-me dizer uma coisa: o Caminho começa onde cada um quiser. Pode começar em Portugal ou em França, mas uma coisa é certa: termina sempre em Santiago.

Porque é que esses Caminhos, iniciados longe de casa, o marcaram tanto?

Todos os Caminhos marcam, uns por umas razões, outros por outras. Não há nenhum que me tenha deixado indiferente. Aviso já: torna-se num vício, mas um vício ótimo!

Peregrinos a brindar com vinho e mapa em bronze dos Caminhos de Santiago na Europa
Fotos: João Carlos

Há uma recordação de cada Caminho que guarde em especial?

Sim, existem várias. Cada Caminho deu-me uma lembrança especial, mas uma das mais marcantes foi no Caminho Francês.

Logo no primeiro dia, cruzei-me com uma família asiática: o pai, a mãe e duas filhas, uma delas com autismo. Na altura, a minha mulher estava grávida do nosso primeiro filho e, logo no início da gravidez, tinham-nos dito que havia uma probabilidade de 2% de ele nascer com autismo.

Passados alguns dias, deixei de ver essa família. Quando voltei a encontrá-los, pusemo-nos a conversar e contei-lhes a minha história. O pai deu-me um abraço e disse-me que ia correr tudo bem.

Isto foi de manhã. Nesse mesmo dia, a minha mulher fez um dos últimos exames e enviou-me uma fotografia da ecografia: o bebé estava a fazer “fixe” com a mão. Sim, estava tudo bem. Voltei a encontrar o casal e o pai deu-me outro abraço enorme. Um enorme abraço que ainda hoje sinto.

Dois peregrinos a caminhar ao longe num campo, contra o sol
Foto: João Carlos

Pensa um dia fazer o Caminho com os seus filhos?

Ontem já era tarde. Hei de fazer o Caminho com a minha família, sem dúvida.

Consegue desligar o “olhar de polícia” enquanto caminha?

Nunca se desliga. Já passei por uma situação em Olveiroa em que tivemos de expulsar uns delinquentes do albergue, porque estavam a causar problemas. Houve outra situação no comboio de regresso. Nada de extraordinário, pelo menos aos meus olhos.

Sapateira de um albergue e sala comum de outro albergue do Caminho
Fotos: João Carlos

Na sua perspetiva, o Caminho de Santiago é um percurso seguro?

Seguríssimo. Os peregrinos ajudam-se uns aos outros e há sempre alguém por perto. Além disso, andam todos de cajado na mão 😉

Grupo de peregrinos a caminhar, peregrinos a alongar à noite e reflexo num espelho de estrada
Fotos: João Carlos

Alguma vez teve de ajudar outro peregrino numa situação difícil?

Sim, várias vezes. Já encontrámos um peregrino sem água a cerca de 1 km de uma aldeia, num vale. Também já ajudei peregrinos em cadeira de rodas e muitos com bolhas nos pés.

Rebanho de cabras num caminho rural e aldeia com um lago
Fotos: João Carlos

Mas o caso de que me lembro melhor é o de uma pessoa que tinha saído a pé de casa, na Holanda. A cerca de 50 km de Santiago de Compostela, teve uma lesão no gémeo e disse-nos que ia desistir ali mesmo. Aplicámos-lhe um pouco do nosso linimento. Ardeu-lhe um pouco, mas, ainda assim, conseguiu chegar a Santiago.

Leia também: 10 dicas para não ganhar bolhas nos pés durante o Caminho de Santiago

Que cuidados recomendaria a quem vai sozinho pela primeira vez?

Vá. Caminhe, respeite o seu ritmo e sorria. Cuide dos pés: hidrate-os de hora a hora, faça uma pausa e beba água regularmente. São eles que o vão levar até Santiago de Compostela.

Pés de peregrino junto a uma vieira no chão e peregrinos a alongar na rua
Fotos: João Carlos

Que conselho daria a um português que quer começar o Caminho fora do país?

Apanhe o comboio, o avião ou uma boleia, e vá. Quando se quer mesmo fazer o Caminho de Santiago, não são precisos muitos conselhos: faz-se.

Poste com destinos e distâncias, marco Bom Caminho em Vila Praia de Âncora e teto pintado com uma vieira
Fotos: João Carlos

Qual foi a coisa mais inútil (ou mais caricata) que alguma vez levou na mochila?

No meu primeiro Caminho, de 6 dias e muito dele pela areia, levei 6 boxers, 6 pares de meias, 6 t-shirts, uma camisola para sair à noite, uma toalha de praia enorme, 4 calções, etc. Enfim, uma estupidez pura.

Hoje sei que chega isto:

  • 3 t-shirts técnicas;
  • 2 cuecas ou sungas;
  • 3 pares de meias;
  • 1 camisola;
  • 1 poncho para a chuva;
  • 2 calções;
  • alfinetes de ama, para pendurar a roupa a secar na mochila.

Leia também: O que levar na mochila para os Caminhos de Santiago

Seja qual for o motivo que o leva a partir (fé, desafio pessoal ou curiosidade), o conselho do João Carlos é simples: vá. A preparação é importante, mas o passo mais difícil é mesmo decidir começar.

Escolha o percurso que mais lhe convém, prepare a mochila com calma e não se esqueça da credencial do peregrino, o documento onde vai recolhendo carimbos ao longo das etapas.

E quem sabe? Talvez um dia tenha também uma história para contar.

Pintura de uma vieira entre estrelas e pôr do sol num campo
Fotos: João Carlos

Todas as fotografias deste artigo são do João Carlos.

Outros artigos